Quase todo mundo que começa a gerar imagens com IA passa meses tentando melhorar os resultados só pelo texto do prompt: troca "bonito" por "deslumbrante", acrescenta "8K", "ultra detalhado", "obra-prima". E o resultado continua parecido. O motivo é simples: boa parte do que define a imagem final não está no texto — está nos parâmetros.

Parâmetros são os controles numéricos que dizem ao modelo como desenhar, e não o quê desenhar. Proporção da tela, quanto o modelo deve obedecer ao seu texto, quantas etapas de refinamento ele vai executar, qual semente aleatória usar, quanta liberdade estética ele tem. São eles que separam quem gera dez variações aleatórias de quem consegue repetir, ajustar e evoluir uma imagem de forma controlada.

Este guia é uma referência técnica dos cinco parâmetros que aparecem em praticamente todas as ferramentas — aspect ratio, seed, CFG, stylize e steps — mais alguns adjacentes que valem conhecer. A ideia é que você possa voltar aqui sempre que precisar lembrar o que cada valor faz, em qual faixa mexer e o que quebra quando você exagera.

Por que parâmetros importam mais do que adjetivos

Um modelo de difusão parte de ruído puro e vai "limpando" esse ruído passo a passo até chegar em uma imagem. O prompt funciona como um mapa de destino; os parâmetros definem a estrada, a velocidade e o quanto o motorista pode improvisar no caminho.

Isso explica por que dois prompts idênticos geram imagens completamente diferentes, e por que adicionar mais adjetivos muitas vezes não muda nada. Se o modelo já está com a obediência ao texto baixa (CFG baixo), acrescentar palavras não adianta — ele simplesmente não está prestando muita atenção nelas. Se os steps estão baixos demais, nenhum adjetivo vai salvar a textura da imagem, porque o modelo não teve iterações suficientes para resolver os detalhes.

A prática que separa iniciantes de gente experiente é a seguinte: mude um parâmetro de cada vez. Se você troca o prompt, o seed e o CFG na mesma tentativa, não vai saber o que causou a melhora. Fixando o seed e mexendo só no CFG, você isola a variável e aprende de verdade como aquele modelo se comporta.

💡 Dica: antes de otimizar qualquer coisa, gere quatro imagens com o mesmo prompt e parâmetros padrão. Elas mostram o "ponto de partida" do modelo. Só depois comece a alterar valores — e sempre um por vez.

Aspect ratio: a proporção que define o enquadramento

O aspect ratio (proporção, ou razão de aspecto) é a relação entre largura e altura da imagem. No Midjourney é escrito como --ar 16:9; no Stable Diffusion e derivados, você define largura e altura em pixels; no ChatGPT e no Gemini normalmente basta pedir em linguagem natural ("formato retrato 9:16").

Parece o parâmetro mais banal da lista, mas é o que mais influencia a composição. O modelo não apenas corta a mesma cena em formatos diferentes: ele recompõe. Um retrato pedido em 16:9 tende a virar um plano médio com fundo largo; o mesmo prompt em 2:3 vira um close vertical clássico de fotografia. A proporção muda o que a IA entende como "enquadramento natural" para aquela cena.

Valores mais usados e para que servem

ProporçãoUso típicoO que o modelo tende a fazer
1:1Avatar, feed do Instagram, ícone, thumbnail de produtoCentraliza o sujeito, fundo simplificado
4:5Post vertical do Instagram e FacebookPlano médio, boa presença do sujeito
2:3Retrato fotográfico, pôster, capa de livroClose ou plano americano, estilo editorial
9:16Stories, Reels, TikTok, wallpaper de celularComposição vertical, muito espaço acima e abaixo
16:9Thumbnail de YouTube, banner, cena cinematográficaPlano aberto, paisagem, contexto ao redor
21:9Cinemático ultrawide, capa de sitePanorâmica, sujeito pequeno no quadro
3:1Banner de topo, capa do LinkedInFaixa horizontal; costuma exigir prompt bem específico

Uma armadilha frequente: proporções muito extremas (como 3:1 ou 1:3) confundem modelos treinados majoritariamente em imagens próximas do quadrado. É comum aparecer duplicação — dois rostos, duas cabeças, elementos repetidos nas bordas — porque o modelo tenta "preencher" um espaço para o qual não tem referência forte. Nesses casos, o caminho mais seguro é gerar em 16:9 e depois usar recorte ou expansão por outpainting para chegar ao formato final.

Outro ponto prático: gerar já na proporção certa é sempre melhor que cortar depois. Cortar descarta pixels e reduz resolução útil. Se você precisa da mesma imagem em vários formatos, gere no formato mais restritivo (geralmente o vertical) e adapte os demais com redimensionamento controlado.

Seed: o número que torna o resultado repetível

O seed é o número inteiro que inicializa o ruído aleatório de onde a imagem nasce. Mesmo prompt + mesmo seed + mesmos parâmetros + mesmo modelo = mesma imagem, pixel por pixel. Mudou o seed, mudou tudo.

Esse é provavelmente o parâmetro mais subutilizado por iniciantes, e o mais importante para quem trabalha com IA de forma profissional. Sem controlar o seed, você não consegue iterar — só sortear de novo.

Os usos práticos são três:

Vale entender uma limitação importante: o seed é específico do modelo e da versão. O seed 42 no SDXL não produz nada parecido com o seed 42 no Flux. Trocou de modelo, seus seeds antigos viram números sem significado. Por isso, anote sempre modelo + versão + seed juntos, nunca o seed sozinho.

💡 Dica: quando uma geração sair boa, salve imediatamente o conjunto completo: prompt, prompt negativo, seed, CFG, steps, sampler, modelo e proporção. Uma planilha simples com essas colunas vale mais do que qualquer coleção de imagens soltas — sem esses dados, um resultado ótimo é irreproduzível.

CFG Scale: o quanto a IA obedece ao seu prompt

CFG significa Classifier-Free Guidance, e a escala de CFG controla o peso que o modelo dá ao seu texto em relação ao que ele "gostaria" de desenhar por conta própria. É, na prática, um botão de obediência.

Valores baixos deixam o modelo criativo e solto, mas ele começa a ignorar partes do prompt. Valores altos forçam a aderência literal, mas a imagem fica saturada, com contornos duros, contraste exagerado e um aspecto artificial — o chamado "queimado" ou overcooked.

Faixa de CFGComportamentoQuando usar
1–3Quase ignora o prompt; resultado imprevisível e etéreoExploração artística, texturas abstratas
4–6Interpretação livre, cores suaves, aparência mais naturalFotorrealismo, retratos, cenas orgânicas
7–9Equilíbrio entre obediência e naturalidade — a faixa padrãoUso geral; ponto de partida recomendado
10–14Aderência forte ao texto, cores mais intensasIlustração, design gráfico, composições específicas
15+Saturação, artefatos, bordas duras, distorçõesRaramente útil; só em casos muito específicos

Um detalhe importante que confunde muita gente: modelos mais novos usam faixas diferentes. O Flux, por exemplo, trabalha com uma escala de guidance própria em que valores entre 2 e 4 são normais — colocar 7 ali já é alto. Modelos "turbo" e destilados, feitos para rodar em poucos steps, costumam pedir CFG entre 1 e 2. Ou seja: não existe um número universal, existe o número certo para aquele modelo. Sempre consulte a recomendação de quem publicou o checkpoint antes de assumir que 7 é o padrão.

Sintoma prático de CFG alto demais: pele com aparência plástica, cores neon, halo escuro em volta dos contornos, texto ou padrões repetidos de forma agressiva. Sintoma de CFG baixo demais: a imagem é bonita, mas metade do que você pediu não está lá.

Stylize: a estética própria do modelo

O parâmetro --stylize (ou --s) é característico do Midjourney e controla o quanto o modelo aplica sua própria sensibilidade artística sobre o seu pedido. É quase o oposto conceitual do CFG: em vez de medir obediência ao texto, mede liberdade estética.

A escala vai de 0 a 1000, com padrão em 100. Na prática:

Existe um parâmetro irmão que costuma ser confundido: o --chaos (ou --c, de 0 a 100), que controla a variedade entre as quatro imagens de um mesmo lote, não o estilo de cada uma. Chaos alto entrega quatro interpretações radicalmente diferentes do mesmo prompt — excelente para brainstorm inicial, péssimo quando você já sabe o que quer. Há ainda o --weird, que injeta estranheza deliberada e serve mais para experimentação do que para trabalho de cliente.

Em modelos fora do Midjourney não existe um "stylize" equivalente direto. O efeito parecido se consegue por outros meios: LoRAs de estilo, palavras-chave estéticas no prompt, ou ajuste fino do CFG. Vale conhecer o conceito mesmo assim, porque a lógica de "quanto de personalidade o modelo pode colocar" aparece de formas diferentes em quase toda ferramenta.

Steps: quantas iterações o modelo executa

Steps (ou sampling steps) é o número de etapas do processo de remoção de ruído. Cada step aproxima um pouco mais a imagem do resultado final. Mais steps significa mais tempo de processamento — e, até certo ponto, mais detalhe.

A palavra-chave é até certo ponto. Esse parâmetro tem retorno decrescente muito claro: a diferença entre 10 e 25 steps é enorme; entre 30 e 60 é sutil; acima de 80 é praticamente imperceptível, e você só está gastando tempo e energia.

StepsResultadoObservação
1–8Só funciona em modelos turbo/destiladosEm modelos normais, sai borrado e incompleto
10–20Rascunho rápido, formas definidas, detalhe fracoBom para testar composição e prompt
25–35Qualidade de produção na maioria dos casosFaixa recomendada como padrão
40–60Ganho marginal em cenas muito complexasSó vale em imagens com muitos elementos
80+Sem ganho perceptívelDesperdício de tempo e processamento

Steps e sampler estão diretamente ligados. Samplers do tipo DPM++ 2M Karras convergem rápido e entregam bom resultado em torno de 25 steps. Samplers como Euler a (ancestral) nunca convergem completamente — a imagem continua mudando conforme você aumenta os steps, o que pode ser bom (mais variação para explorar) ou ruim (dificulta a reprodutibilidade). Se o seu objetivo é consistência, prefira samplers não-ancestrais.

Uma decisão prática de fluxo de trabalho: gere as explorações iniciais com steps baixos (15–20) para testar rapidamente dezenas de prompts, e só refaça a versão final, com o seed vencedor, em 30–40 steps. Isso economiza muito tempo em relação a rodar tudo em qualidade máxima desde o começo.

Os parâmetros adjacentes que também valem conhecer

Além dos cinco principais, alguns controles aparecem com frequência e resolvem problemas específicos:

Quais parâmetros existem em cada ferramenta

A nomenclatura varia bastante entre plataformas, o que causa boa parte da confusão. Esta tabela mapeia os equivalentes:

FerramentaAspect ratioSeedCFG / guidanceStepsStylize
Midjourney--ar 16:9--seed 1234Não expostoNão exposto--s 100
Stable Diffusion / ComfyUILargura × alturaCampo SeedCFG ScaleSampling stepsVia LoRA ou prompt
FluxLargura × alturaCampo SeedGuidance (2–4)20–30 típicoVia LoRA ou prompt
ChatGPT / GPT ImageLinguagem naturalNão expostoNão expostoNão expostoVia prompt
Gemini / Nano BananaLinguagem naturalNão expostoNão expostoNão expostoVia prompt
Leonardo AIPresets + customCampo SeedGuidance ScaleSimPresets de estilo

Repare no padrão: quanto mais a ferramenta é voltada ao usuário final (ChatGPT, Gemini), menos parâmetros ela expõe — a plataforma decide por você. Quanto mais próxima do modelo bruto (ComfyUI, Automatic1111), mais controle. Nenhuma das duas abordagens é superior; elas atendem objetivos diferentes. Se o seu trabalho depende de repetir resultados, você vai acabar precisando de uma ferramenta que exponha seed e CFG.

Como os parâmetros interagem: receitas por objetivo

Parâmetros não funcionam isolados. Estas combinações são pontos de partida testados — ajuste conforme o seu modelo:

ObjetivoProporçãoCFGStepsObservação
Retrato fotorrealista2:3 ou 4:54–630CFG baixo evita pele plástica
Foto de produto1:17–930–35Fundo neutro no prompt
Thumbnail de YouTube16:99–1225CFG alto para cores fortes
Ilustração / arte conceitual16:9 ou 21:97–1030Stylize alto no Midjourney
Logo e marca1:18–1230Stylize baixo para fidelidade
Wallpaper de celular9:166–935Deixe espaço livre para ícones
Teste rápido de prompt1:1715Só para validar a ideia

A lógica por trás dessas escolhas é consistente: fotorrealismo pede CFG baixo (o modelo já sabe como uma foto se parece; forçar demais estraga); design gráfico e material promocional pedem CFG alto (você quer exatamente aqueles elementos, naquelas cores); e steps sobem apenas quando há muitos detalhes finos disputando espaço na cena.

Erros comuns e como corrigir

Checklist rápido antes de gerar

  1. Defina a proporção pelo destino final da imagem, não pelo padrão da ferramenta.
  2. Comece com os valores padrão do modelo — e confirme quais são, porque variam.
  3. Rode um teste barato: steps baixos, quatro variações, só para validar a direção.
  4. Escolha a melhor variação e anote o seed.
  5. Com o seed fixo, ajuste um parâmetro por vez até chegar no ponto.
  6. Refaça a versão final com steps de produção (30–40).
  7. Registre prompt, negativo, seed, CFG, steps, sampler, modelo e proporção.
  8. Faça a pós-produção: upscale, recorte, ajuste de nitidez e compressão para web.

Depois de gerar: a etapa que quase todo mundo pula

Uma imagem gerada por IA raramente sai pronta para publicar. Ela costuma vir em PNG pesado, na resolução nativa do modelo, sem o corte exato que o seu canal exige. Essa etapa final de tratamento é o que separa uma imagem "de IA" de uma imagem que simplesmente funciona no seu site ou perfil.

O roteiro básico de pós-produção é curto: ajuste o enquadramento com recorte quando a proporção final não bater exatamente; leve para a dimensão exata do destino com redimensionamento; recupere microdetalhe com ajuste de nitidez se a imagem foi ampliada; e, por fim, converta para WebP e comprima com o compressor, porque um PNG de 4 MB no topo da página derruba o PageSpeed independentemente de quão boa a arte seja.

Se a imagem vai virar identidade visual, o caminho continua em outras ferramentas: extraia a paleta com o gerador de paleta de cores para manter coerência entre as peças, e use o criador de logo com IA quando o objetivo for marca.

Ajuste suas imagens de IA no formato certo

Depois de acertar os parâmetros, deixe a imagem na dimensão exata do seu destino — grátis, direto no navegador e sem enviar nada para servidor.

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Perguntas frequentes

Qual é o valor ideal de CFG para imagens realistas?
Na maioria dos modelos derivados do Stable Diffusion, a faixa entre 4 e 6 entrega o resultado mais natural para fotorrealismo, porque valores altos criam pele plástica e contraste exagerado. No Flux, que usa uma escala de guidance diferente, o equivalente costuma ficar entre 2 e 4. Sempre confirme a recomendação específica do modelo que você está usando antes de assumir um número padrão.
O mesmo seed gera a mesma imagem em ferramentas diferentes?
Não. O seed só é reprodutível dentro do mesmo modelo, na mesma versão e com os mesmos parâmetros. O seed 12345 no SDXL não tem qualquer relação com o seed 12345 no Flux ou no Midjourney. Por isso é essencial anotar modelo e versão junto do número — o seed isolado não carrega informação útil.
Aumentar os steps sempre melhora a qualidade da imagem?
Não. O ganho é muito grande até cerca de 25 a 30 steps e depois cai rapidamente. Acima de 60 a diferença é praticamente imperceptível, e acima de 80 você só está gastando tempo de processamento. Se a imagem tem problemas de anatomia ou elementos faltando, o culpado é o prompt ou o modelo, não a quantidade de steps.
Qual a diferença entre stylize e chaos no Midjourney?
O stylize controla o quanto o modelo aplica a própria estética artística sobre o seu pedido, afetando iluminação, paleta e composição de cada imagem. O chaos controla a variedade entre as quatro imagens de um mesmo lote: com chaos alto, você recebe quatro interpretações bem diferentes do mesmo prompt. Use chaos alto na fase de exploração e baixo quando já souber a direção desejada.
Por que aparecem pessoas ou objetos duplicados na imagem?
Isso costuma acontecer quando a proporção é muito extrema ou a resolução está bem acima daquela em que o modelo foi treinado. O modelo tenta preencher o espaço extra repetindo elementos que já reconhece. A solução é gerar em uma proporção mais próxima do quadrado ou do 16:9, na resolução nativa do modelo, e depois expandir com outpainting ou ampliar com upscale.
Como controlar parâmetros no ChatGPT ou no Gemini, que não expõem esses campos?
Essas ferramentas escondem os controles numéricos e decidem os valores internamente, então o ajuste é feito por linguagem natural no próprio prompt: peça o formato explicitamente, descreva o nível de detalhe e indique se quer uma leitura mais literal ou mais artística da cena. Se o seu trabalho exige reprodutibilidade exata, o caminho é usar uma ferramenta que exponha seed e CFG, como ComfyUI, Automatic1111 ou Leonardo AI.